“Legalize Já”, filme que conta a história do Planet Hemp, é uma das grandes cinegrafias do ano
17/10/2018 10:41 em CINEMA

Raríssimos filmes conseguem captar a essência de uma banda. "Legalize já", que estreia nesta quinta-feira, dia 18, é um deles.

Solitário, debaixo dos arcos da Lapa, Marcelo rabisca num caderno frases como “você vira as costas e diz que a culpa não é sua”. Ao longe, pessoas vivem sua rotina, andam de bicicleta, um bonde passa acima de onde ele está, e Marcelo permanece pensativo, sozinho, apenas com seus pensamentos, a caneta e o papel. Skunk, por outro lado, aparece inicialmente em um plano mais fechado, num depósito, onde grava suas fitas, num nível de concentração absurdo.

Assim, os diretores Johnny Araújo e Gustavo Bonafé avaliam as diferenças dos dois protagonistas de Legalize Já, criando um paralelo entre como a sociedade exerce influência nos versos de alguém com a intimidade e a individualização de cada batida e de cada letra.

Partindo desta essência, a dupla capta como poucos a ressonância da arte na vida daquelas pessoas – de como vendedores de fitas e camisetas, dois amigos irão se tornar autoridades do rap nacional. Raríssimos filmes conseguem captar a essência de uma banda. Legalize já é um deles. Se o excelente design de produção aponta constantemente para o ambiente simples e ilhado que seus personagens trafegam, a fotografia de Pedro Cardillo reflete na mesma dignidade os tons de abnegação, vício e desconforto presente na vida de Marcelo e Skunk.

Renato Góes e Ícaro Silva no palco

A decisão de usar o P&B como uma forma de exposição natural desse mundo cinzento não se torna, portanto, apenas uma questão estética; pelo contrário, ela aprofunda certas condições de seus protagonistas, como na cena em que Skunk é abordado por uma viatura da Polícia Militar numa rua deserta, com pouca iluminação. Lá, o jovem negro da periferia está acuado, sem saída, num lugar em que ninguém vai, e a polícia pode agir com a truculência que deseja. As ruas pichadas e de pouco movimento acabam se tornando espelhos de como Skunk e Marcelo se sentem neste Brasil que habitam, algo que se torna ainda mais forte quando, nos shows, eles passam a enxergar pessoas se movendo através de suas músicas.

Enquanto Renato Goés e Ícaro Silva são a alma do filme de Johnny e Gustavo, conseguindo transmitir com perfeição a simplicidade, desespero e esperança de uma juventude com muito para falar, o apelo técnico do longa-metragem consegue versar brilhantemente com essa natureza sem que pareça melodramático. Dois exemplos belíssimos são indicados no último ato do filme, quando Marcelo recebe uma notícia que o deixa em lágrimas e o som da chuva se sobrepõe ao seu choro, e, claro, quando certo personagem entra num hospital e no lado direito uma placa sobre Aids deixa revelado o motivo daquela visita, sem que isso precise ser dito.

 

Afinal, é a simplicidade de Legalize Já que é sua maior força.

FONTE:  POR Andrey Lehnemann

FOTO: DIVULGAÇÃO

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